June 26th, 2008
Relatório de Estágio.
É difícil falar sobre um estágio do qual eu mal participei, relatar as experiências pelas quais o grupo passou, discorrer sobre os ocorridos em sala de aula, etc., creio também que esse não é o objetivo desse relatório. Sinto-me bem certo disso ao lembrar do último encontro que tivemos e daquele na qual foi discutida em sala de aula a diferença que a minha ausência, a de Luana e a de Gabriel faziam na sala. Foi dito, que não era necessário que eu estivesse no grupo religiosamente nem atendesse todas as expectativas para que eu pertencesse ao grupo. Eu sinto que fiz parte do grupo. Sei que não atendi às expectativas, mas não me sinto culpado pois fiz parte do grupo do meu jeito, no meu tempo e dentro dos meus limites.
Queria então falar um pouco da impressão que tive a respeito do tema do estágio. Gostaria de começar por aí, pois foi por esse caminho que escolhi o estágio dentre todas as opções que tive (nenhuma me agradou... mesmo). Pra falar a verdade nem lembro ao certo do nome do estágio. Quando me perguntavam, eu respondia “tem a ver com o corpo, noções corporais e dinâmicas de grupo”. Eu acho que isso ilustra bem o que o estágio representou para mim. Um lugar aonde poderíamos dar atenção ao nosso corpo, que é o intermediário das nossas relações com o mundo (surge aí a relevância do corpo para mim), onde aprenderíamos como notar nós mesmos no nosso corpo e aprender a possibilitar que o outro aprenda a respeito dele mesmo dentro do seu corpo. Esse era o objetivo do estágio para os meus olhos.
Então. Começo a falar sobre os encontros. Participamos de inúmeras dinâmicas. Todas me interessaram bastante, mas uma me mexeu de forma diferente. A que deveríamos manter o olhar fixado no olhar do outro enquanto um deitava e o outro estava sentado “tomando conta” do outro. Eu já tinha tido experiências de manter o olhar fixado no outro por bastante tempo, mas não sei o que foi que me trouxe essa sensação de dependência, como se olhar para o outro fosse quase um pedido “por favor, agora eu preciso de você, não saia”. Uma sensação de vulnerabilidade que foi desagradável. Talvez por conta da posição, talvez por outro motivo, mas acho que desvendar os porquês não convém neste momento. Então comecei a faltar encontros. Faltei quatro seguidos, se não me engano. Aí, antes do quinto (que eu não faltaria), fui abordado por Thais Ribas, que me pediu para estar presente naquele dia, pois minha ausência tinha sido questão de discussão no encontro anterior. Fiquei apreensivo, não vou mentir, mas resolvi encarar o que viria... e me surpreendi! Foi um encontro intenso pra mim, posso não ter mostrado isso que digo, mas foi. Por alguns dias eu pensei sobre o que foi dito, e pude constatar o que disse no início desse texto. A maioria das pessoas eu já conhecia, peguei algumas matérias com cada uma delas, mas nunca tive um vínculo, com nenhuma delas. Então nesse dia, a priori me pareceu uma reação meio exagerada, sabe? Como eles sentiram tanto minha falta se nem amigo deles eu sou? Se nunca me relacionei com nenhum deles? Como podia fazer tanta diferença? Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas, mas sei que me enganei. Já havia me relacionado com eles, por menor que tenha sido o contato, por mais breve, e foi preciso isso tudo para que eu percebesse esse vínculo, para que eu percebesse, de fato, a diferença que eu fazia num grupo que “mal participava”.
Houveram, então, continências que impossibilitaram que eu participasse de alguns encontros posteriores. Provavelmente perdi momentos interessantes e marcantes, mas fiquei sabendo de alguns dos acontecidos. Gostaria de ter sido mais ativo neste estágio. Saio com a sensação de que absorvi muito menos do que poderia, prova disso é esse relatório que com muito custo escrevo (e que ainda tem menos de duas páginas inteiras). É aquela velha história: queria ter mais casos pra contar.
Mas como não tenho, pulo para o último encontro.
O dia foi conturbado: acordei muito cedo, me arrumei daquele jeito (que todos devem ter percebido que é muito diferente do que normalmente me visto) e fui fazer uma entrevista de estágio lá no CIA em Simões Filho. No final das contas não fui escolhido para a vaga, mas foi uma experiência interessante de seleção. Senti uma tensão enorme, e pude ver isso quando cheguei na sala de aula (muito atrasado) e entrei no círculo. Minhas costas doíam, meu corpo reclamava de todo aquele nervosismo e mobilização. Senti muita dor mesmo. Mais ou menos na altura da minha escápula direita e ela não cedia. Só quando cheguei em casa que consegui relaxar. Mas relaxado ou não, isso não impossibilitou que muita coisa se passasse em mim. Comovi-me muito com as apresentações das meninas que se mobilizaram muito com o que elas tinham feito. Não entendi ao certo o que deveria ser feito, mas se agora me fosse ofertado um monte de argila e uma tábua de madeira, eu desenharia algo parecido com um círculo, feito por pedaços distintos mas ainda assim unidos. Este círculo simbolizaria o grupo. Cada um é diferente, mas todos estão no mesmo barco, no caso, no mesmo círculo. Como um grupo mesmo. Claro que se tivesse algum dom artístico, eu faria algo mais intrínseco e mais estilizado... ou talvez não, mas se AGORA tivesse que fazer algo com argila e que tivesse que ser relacionado à minha experiência no estágio, eu desenharia um círculo, que mesmo tendo perdido um pedaço durante o percurso, nunca deixou um espaço aberto.
Caio Rohr