August 22nd, 2008
Uma experiência e um ponto de vista
Alguns anos atrás, provavelmente no verão de 2003, meus pais alugaram, pelo período de um verão, uma casa em Guarajuba. A família inteira se mudou para lá, diversos amigos e cada um de nós tinha o direito de convidar alguém para passar algum tempo conosco. A casa era muito grande.
Obviamente eu chamei a pessoa que chamava de namorada, na época.
Praia, churrasco, piscina, restaurantes... a rotina era agradável.
E foi nesse lugar que eu vivi uma experiência que sempre esteve muito fresca na minha memória... eu sempre lembrava dela, mas não fazia nenhuma relação com coisa alguma, nem nunca via nenhum significado naquilo.
A experiência foi a seguinte:
Um dia, não sei por que diabos, minha namorada brigou comigo... ela nunca parecia ter um motivo para brigar comigo, mas o fazia... muito bem, vou me ater simplesmente ao que me marcou. Não foi a briga, não foram as paragens nas quais me encontrava. Foi o que fiz.
Como disse antes, não lembro o motivo da briga, por tanto fica difícil dizer o que tinha em mente quando decidi fazer o que fiz. E o que fiz foi o seguinte: eu saí pra dar uma volta...
Saí pra andar até que o momento de voltar surgisse.
Rumei então para a praia. Não sei porque a praia. Poderia ter ido em direção à vila (se é que aquilo pode ser chamado de vila)... podia ter feito qualquer coisa, mas decidir andar na praia e seguir ao norte.
Lembro que desci do passeio de madeira e pisei na areia. Assim que o fiz, tirei meus chinelos e senti a areia fria entre os meus dedos. Era de noite. A lua estava na sua fase crescente, algumas estrelas a salpicar o céu, o barulho suave das ondas como se elas massageassem a areia diante de mim.
Comecei a andar, e seguindo meu caminho eu percebi os barcos dos pescadores repousando na areia, as barracas fechadas, sem movimento algum, muito diferente de como as conhecia, vi as plantas, que mesmo no escuro pareciam verdejantes e vivas, como se o brilho da lua e das estrelas as fizessem mais belas, os coqueiros, o barulho do vento e das aves que viviam por ali. Não lembro de ter cruzado com alguém. Lembro que segui a linha da praia que fazia muitas curvas. Molhava meus pés aqui e ali e em certo momento, resolvi me sentar e observar o movimento que o mar, pobremente iluminado pela lua e estrelas, fazia.
Fiquei ali algum tempo. Acho que nesse momento alguém passou por mim. Caminhando na direção da qual eu estava vindo. Como estava sentado e virado para o mar, não vi quem passou ali. Pode ter sido qualquer um, que pode ter pensado qualquer coisa ao ver alguém sentado perto do mar, as 22:00 de um dia qualquer da semana.
Então me levantei e rumei mais ainda ao norte e tudo que se passava na minha cabeça eram as coisas que eu via, ouvia e cheirava naquele instante. Então um pensamento me veio à cabeça. Algo que eu não esperava, algo me fazia lembrar das pessoas que havia deixado para trás, estariam elas preocupadas com o meu sumisso? o que elas faziam na minha ausência? o que elas faziam com a minha ausência?
Resolvi voltar.
As plantas não estavam mais tão bonitas e as aves pareciam estar gritando, xingando ou chorando. A noite ficou fria.
Quando cheguei à casa, encontrei minha namorada sentada à varanda conversando com meu irmão. Quando ela me viu, veio falar comigo fria como a noite.
- Aonde você estava?
- Tava andando pela praia, porque?
- Nada. Você sumiu a quase três horas atrás e não avisou ninguém. As pessoas estão preocupadas contigo. Ah, tem mais uma coisa: minha mãe está vindo me buscar.
- Porque?
- Eu não quero mais ficar aqui. Se for pra você fazer isso toda vez que brigarmos, prefiro ir embora. Agora te pergunto, o que você estava fazendo na praia?
- Nada, estava andado.
- Pensando em nada?
- Não. É diferente. Não estava pensando em nada. Simplesmente não estava pesando. Não havia nada na minha cabeça. Apenas estava ali, andando e vendo as coisas.
- Pensei que você tivesse saído para pensar sobre nossa briga.
- Esse é o nosso problema, pensamos demais. Saí para tentar fugir disso, e no momento que um pensamento invadiu minha mente, percebi que era o momento de voltar, pois percebi que não consegui me livrar dessa nossa necessidade.
Isso realmente aconteceu. Me lembro nitidamente dessas coisas que descrevi.
Sinto falta de fazer isso as vezes. De andar, andar, andar, andar... até o momento de voltar. Sem nada na cabeça.
Hoje tentei fazer isso. Dirigi vagarosamente por aí, mas todas as vias que entrava me levava para casa. Era o único lugar aonde eu não queria estar, mas de alguma forma era o único lugar que eu conseguia ir.
Acho que não consegui tirar tudo da cabeça hoje.

Ju (guest)
lindo mesmo.