August 11th, 2008

Mudança de Vida - Parte I: O Viajante

Ele havia partido. Deixado tudo para trás para recomeçar. Não estava fugindo de coisa alguma, não havia se acovardado frente à sua rotina, apenas estava ávido por conta da possibilidade de se apaixonar mais uma vez. Se apaixonar pela vida, reaver algum ímpeto, conquistar algum sentimento, algo genuinamente seu. Era algo promissor. Havia se apaixonado antes, e amava a sensação. Ele havia experimentado quase tudo que a sua antiga vida poderia oferecer, por isso corria atrás do que havia de novo pelo mundo. Por isso ele largou tudo o que tinha e foi para longe.

Ao chegar aonde pretendia, tudo que havia imaginado começou a se tornar realidade. Conheceu novas pessoas, novos hábitos, novas capacidades e criou novas relações, um círculo social completamente novo, que era composto de pessoas que não faziam, de forma alguma, parte do seu passado, portanto só se relacionavam com ele por causa de algum tipo de afinidade ou afeto. Era isso que ele queria: relações que se sustentassem por um fio, um fio tênue, o fio do afeto, nada mais, pois para ele, o afeto que tínhamos para com qualquer coisa era o que havia de mais honesto e humano em cada um.

Mas havia algo de errado nele: ele estava amando. Entregando cada pedaço de si e cada ação da sua vontade a esse amor. Por conta disso ele havia partido, por isso havia deixado tudo que tinha para trás. A simples noção desse amor, o amedrontava. Ele se deleitava com a sensação e com a efetivação das suas vontades relacionadas a esse amor. Por isso tinha medo. Tinha medo de amar mais uma vez e deixar tudo para trás de novo, como havia feito. Por conta disso, ele se apresentava apenas como ‘O Viajante’, pois não queria criar intimidade, queria tudo e todos, mas queria se manter para si. Os outros que o apreciassem do jeito que ele fosse, e não através de algo que alguém tinha escolhido para representa-lo, se quisessem outra palavra para denomina-lo, que a escolhessem eles mesmos.

 

Então O Viajante foi vivendo sua vida. Trabalhava, estudava, saia, festejava com os colegas. Até que encontrou alguém que marcou sua vida, alguém que nem sempre o entendia, mas que sempre estava em contato com ele, com seus sentimentos e com tudo aquilo que representava O Viajante. O nome dessa pessoa era Pilar. Ela o entendia, pois era como ele: apaixonado, amante, impetuoso e instintivo. Isso o fascinava, pois sabia exatamente o que passava na mente de Pilar, sabia as suas opiniões a respeito de tudo, e previa suas reações antes mesmo de algo as aliciar, e quase nunca errava. Era quase uma cópia sua.

 

O tempo foi passando, a relação d’O Viajante com Pilar viveu altos e baixos. Hora se distanciavam, pois achavam que não havia nada em comum entre eles nesses momentos um fazia muita falta ao outro, mas quando se encontravam, as situações era extremamente enfadonha, chegando até ao embaraço certa vez; hora estavam juntos e não havia motivos suficientes para que eles se separassem, e era essa a impressão que todos tinham.

 

Lentamente Pilar foi conhecendo O Viajante, e a recíproca era verdadeira. Eles admiravam mais ainda as peculiaridades e a personalidade do outro como um tudo. Dois organismos que dependiam um do outro, mas se davam espaço suficiente para isso fosse uma opção. E assim eles coexistiam.

 

Um dia O Viajante se sentiu nostálgico. Sentiu falta das sensações que permeavam sua vida no passado, percebeu que estava muito distante delas por tempo e espaço e se entristesceu. Sentia saudades. Assim descobriu que havia mais um amor na sua vida, descobriu que não havia como abrir mão do seu passado. Isso o entristesceu mais ainda. No entanto ele não entendia como poderia se sentir triste se estava vivendo tudo que um dia sonhara. Estava descobrindo pessoas novas e interessantes, situações inesperadas e inesquecíveis, sentimentos indiscutivelmente estranhos para ele e inimaginavelmente satisfatórios também. Não havia razão lógica para a tristeza dele. Então ele resolveu compartilhar seus sentimentos e tudo que estava em sua mente com Pilar. Ela disse que sabia o que havia de errado com O Viajante.

 

E nesse dia Pilar resolveu deixar para trás o título ‘O Viajante’ e resolveu o chamar de ‘O Solitário’.

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June 26th, 2008

Relatório de Estágio.

É difícil falar sobre um estágio do qual eu mal participei, relatar as experiências pelas quais o grupo passou, discorrer sobre os ocorridos em sala de aula, etc., creio também que esse não é o objetivo desse relatório. Sinto-me bem certo disso ao lembrar do último encontro que tivemos e daquele na qual foi discutida em sala de aula a diferença que a minha ausência, a de Luana e a de Gabriel faziam na sala. Foi dito, que não era necessário que eu estivesse no grupo religiosamente nem atendesse todas as expectativas para que eu pertencesse ao grupo. Eu sinto que fiz parte do grupo. Sei que não atendi às expectativas, mas não me sinto culpado pois fiz parte do grupo do meu jeito, no meu tempo e dentro dos meus limites.

Queria então falar um pouco da impressão que tive a respeito do tema do estágio. Gostaria de começar por aí, pois foi por esse caminho que escolhi o estágio dentre todas as opções que tive (nenhuma me agradou... mesmo). Pra falar a verdade nem lembro ao certo do nome do estágio. Quando me perguntavam, eu respondia “tem a ver com o corpo, noções corporais e dinâmicas de grupo”. Eu acho que isso ilustra bem o que o estágio representou para mim. Um lugar aonde poderíamos dar atenção ao nosso corpo, que é o intermediário das nossas relações com o mundo (surge aí a relevância do corpo para mim), onde aprenderíamos como notar nós mesmos no nosso corpo e aprender a possibilitar que o outro aprenda a respeito dele mesmo dentro do seu corpo. Esse era o objetivo do estágio para os meus olhos.

Então. Começo a falar sobre os encontros. Participamos de inúmeras dinâmicas. Todas me interessaram bastante, mas uma me mexeu de forma diferente. A que deveríamos manter o olhar fixado no olhar do outro enquanto um deitava e o outro estava sentado “tomando conta” do outro. Eu já tinha tido experiências de manter o olhar fixado no outro por bastante tempo, mas não sei o que foi que me trouxe essa sensação de dependência, como se olhar para o outro fosse quase um pedido “por favor, agora eu preciso de você, não saia”. Uma sensação de vulnerabilidade que foi desagradável. Talvez por conta da posição, talvez por outro motivo, mas acho que desvendar os porquês não convém neste momento. Então comecei a faltar encontros. Faltei quatro seguidos, se não me engano. Aí, antes do quinto (que eu não faltaria), fui abordado por Thais Ribas, que me pediu para estar presente naquele dia, pois minha ausência tinha sido questão de discussão no encontro anterior. Fiquei apreensivo, não vou mentir, mas resolvi encarar o que viria... e me surpreendi! Foi um encontro intenso pra mim, posso não ter mostrado isso que digo, mas foi. Por alguns dias eu pensei sobre o que foi dito, e pude constatar o que disse no início desse texto. A maioria das pessoas eu já conhecia, peguei algumas matérias com cada uma delas, mas nunca tive um vínculo, com nenhuma delas. Então nesse dia, a priori me pareceu uma reação meio exagerada, sabe? Como eles sentiram tanto minha falta se nem amigo deles eu sou? Se nunca me relacionei com nenhum deles? Como podia fazer tanta diferença? Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas, mas sei que me enganei. Já havia me relacionado com eles, por menor que tenha sido o contato, por mais breve, e foi preciso isso tudo para que eu percebesse esse vínculo, para que eu percebesse, de fato, a diferença que eu fazia num grupo que “mal participava”.

Houveram, então, continências que impossibilitaram que eu participasse de alguns encontros posteriores. Provavelmente perdi momentos interessantes e marcantes, mas fiquei sabendo de alguns dos acontecidos. Gostaria de ter sido mais ativo neste estágio. Saio com a sensação de que absorvi muito menos do que poderia, prova disso é esse relatório que com muito custo escrevo (e que ainda tem menos de duas páginas inteiras). É aquela velha história: queria ter mais casos pra contar.

Mas como não tenho, pulo para o último encontro.

O dia foi conturbado: acordei muito cedo, me arrumei daquele jeito (que todos devem ter percebido que é muito diferente do que normalmente me visto) e fui fazer uma entrevista de estágio lá no CIA em Simões Filho. No final das contas não fui escolhido para a vaga, mas foi uma experiência interessante de seleção. Senti uma tensão enorme, e pude ver isso quando cheguei na sala de aula (muito atrasado) e entrei no círculo. Minhas costas doíam, meu corpo reclamava de todo aquele nervosismo e mobilização. Senti muita dor mesmo. Mais ou menos na altura da minha escápula direita e ela não cedia. Só quando cheguei em casa que consegui relaxar. Mas relaxado ou não, isso não impossibilitou que muita coisa se passasse em mim. Comovi-me muito com as apresentações das meninas que se mobilizaram muito com o que elas tinham feito. Não entendi ao certo o que deveria ser feito, mas se agora me fosse ofertado um monte de argila e uma tábua de madeira, eu desenharia algo parecido com um círculo, feito por pedaços distintos mas ainda assim unidos. Este círculo simbolizaria o grupo. Cada um é diferente, mas todos estão no mesmo barco, no caso, no mesmo círculo. Como um grupo mesmo. Claro que se tivesse algum dom artístico, eu faria algo mais intrínseco e mais estilizado... ou talvez não, mas se AGORA tivesse que fazer algo com argila e que tivesse que ser relacionado à minha experiência no estágio, eu desenharia um círculo, que mesmo tendo perdido um pedaço durante o percurso, nunca deixou um espaço aberto.

Caio Rohr

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May 30th, 2008

Genuinamente acompanhada

Eles andam pela relva. O capim macio massageia seus pés cansados enquanto eles descem a ravina em direção à margem do lago. Era um lago plácido e extenso, parecia não ter fim em um das suas extremidades. Era um belo lago margeado por uma bela colina de grama macia e de um verde vivo como a luz do sol salpicada com árvores esparsas e robustas. O clima está agradável: nuvens cobrem parcialmente o céu e os raios de sol irrompem através delas como se estivessem fazendo um esforço descomunal para romper uma barreira intransponível. Ainda assim não está frio. Nem quente. Está agradável. Um vento frio sopra por entre as colinas que rodeiam o lago, fazendo com que os cabelos dos dois esvoaçassem livres e arredios. O frio era compensado pelo calor repentino que os raios emitiam quando extrapolavam o maciço de nuvens.

Perto de umas das extremidades do lago estavam os seus destinos. Eram para aquele lugar que eles rumavam.

E foram seguindo seu rumo. Descendo a colina com leveza e alegria estampada nas suas faces jovens. Alegria, pois estão indo para o lugar que sempre mereceram estar, alegres por estarem juntos, compartilhando mais esse momento, alegres por amarem um ao outro mais do que nunca e por terem certeza absoluta que ao chegarem ao seu destino, esse amor será preservado, cultivado e expandido. Por toda a eternidade.

Eles dois trocam olhares apaixonados, mas não proferem uma palavra sequer sabem que palavras não são necessárias no lugar que estão, sabem que se falarem quebrarão o silêncio e assim suas intimidades, suas juras e sentimentos serão jogados ao vento.

O vento. O único que ousa quebrar o silêncio envolvente dessas paragens mágicas.

Então, quase que imperceptivelmente, o uivo do vento se torna uma lamúria.

Essa mudança passa despercebida pelos dois. Eles continuam na sua descida serelepe. Seus pés pareciam não tocar a grama verde. As mãos se entrelaçam e eles atingem juntos os ápices da cumplicidade, da intimidade e da entrega dos seus corpos e almas. Então param, trocam olhares e se abraçam até que seus corpos tenham se tornado um e suas almas residissem o mesmo lugar.

Então, ela se afasta e seu olhar está diferente. Ela se senta em uma pedra próxima e olha para o chão. Vê as folhas de capim entre seus dedos. Sente frio, um frio tão cortante que mesmo que seu amado a cobrisse com seu corpo, ela não sentiria conforto. Então soube que sua hora havia chegado. Limitou-se a trocar mais um olhar com ele que agora estava a sua frente, agachado, com o olhar mais acolhedor que ele podia oferecer. Então houve mais um contato, um olhar sublime entre os dois que deixou claro para ele o que ela havia descoberto. E seu olhar entristeceu. Estavam tão perto do seu destino. O que poderia ele fazer? Então, ela ousou o inesperado. Ela quebrou o silêncio e disse “não me deixe, pois chegou minha hora”. Nesse momento o mundo todo estremeceu, a grama perdeu sua vivacidade e a lamúria do vento se tornou um choro. Todos souberam o que estava acontecendo e todos perceberam o que o mundo estava prestes a perder, mas ninguém ousou se aproximar e arriscar profanar o momento mais intenso da vida dos dois. Ele então, seguindo o exemplo da sua amada, quebra o seu silêncio “não te deixarei, mesmo após a sua partida definitiva”. E todo o mundo se calou e chorou baixinho.

Ela então se deitou e aconchegou na pedra, que parecia estar aquecida. Uma sutil condolência do mundo que lamentava. Ele a acompanhou. Deitou-se às suas costas e pôs-se a acariciar seus cabelos fartos, tocar com a ponta dos dedos a sua pele macia e quente e deslizar por todo o corpo suas mãos cheias de vida. Ela então se vira para ele e eles se olham. E permanecem assim por tempo incontável. Horas, dias, meses poderiam ter passado naquele breve instante, mas eles não saberiam dizer. Estavam absortos na paixão que os seus olhares irradiavam. Ela soube, nesse instante, que ele não se esqueceria dela. Mesmo após a passagem de eras, ela ainda estaria viva na sua memória.

Não se sabe quanto tempo os dois permaneceram naquela posição, se olhando e se amando de forma tão delicada e sutil. O que se sabe é que muito tempo passou, e ele começou a sentir o peso do cansaço. Suas pálpebras pendiam pesadamente sobre os olhos, suas idéias e raciocínios começaram e ficar lentos e turvos, então ela lhe dispensou um olhar de compaixão, como se dissesse que ele poderia dormir, pois o que ele podia ter feito por ela, ele fez. Então sua mente flutuou para algum lugar distante. Parecia um túnel, sem fim. Uma queda suave até as profundezas do seu ser. Até que avistou alguma coisa. Seria uma luz? Não. Era o reflexo de um lago, cercado por um enorme gramado verde. Então ele se viu deitado na mesma pedra que se encontrava a sua companheira. Mas ele estava sozinho nela. Os raios ainda apareciam esporadicamente, o vento ainda uivava balançando a grama macia. Mas ele estava sozinho. Sentiu um vazio enorme, sentiu que tudo que tinha cultivado com sua companheira havia se esvaído da sua memória. Não gradualmente, mas abruptamente. Um frio percorreu seu corpo e ele caiu de joelhos e chorou. Quando sua primeira lágrima tocou o chão, ele ouviu algo, uma voz, um som que ele adorava acima de tudo, mas que até então parecia estar longe e perdido para sempre: a voz da sua companheira, que perguntava por que ele chorava.

-choro, pois deixei você escapar da minha memória

Mas ele estava enganado. O que vira foi uma premonição do que aconteceria se perdesse esse momento, se abrisse mão de presenciar o último momento da sua amada. Então decidiu acordar para ver que ela ainda estava ao seu lado.

-como posso me perdoar por ter arriscado perder esse momento?

-como posso te culpar se esteve ao meu lado por todo esse tempo? O momento não passou e ainda preciso de você comigo

Então se calou e a tomou nos braços. Ao fazer isso, seu corpo tomou proporções gigantescas, e ele pode envolver ela completamente, e pode aquecer ela com o seu próprio corpo e transmitir seu amor, paixão e carinho dessa forma.

Um sorriso, um brilho no olhar. Ela então pediu que ele aproximasse seu rosto do dela e falou baixinho ao seu ouvido.

-eu te amo, mas isso você já sabe. Por isso parto em paz

Então deu seu último suspiro com delicadeza e calma e seus olhos se fecharam para nunca mais trocar nenhum olhar com o seu escolhido.

Nenhuma lápide foi feita para ela, nenhum epitáfio escrito. Tudo a seu respeito estaria, de ali em diante, guardado na mente daquele que esteve com ela genuinamente.

No lugar da sua sepultura nasceu uma árvore de tronco robusto e imponente, sua copa era frondosa e larga, e suas folhas eram vivas e balançavam com alegria ao vento que presenciara todo o ocorrido.

 

Caio Rohr 

Posted by caiorohr at 06:40 AM | 2 Comment

May 14th, 2008

Reflexão de Psicologia Geral IV (ou Processos Psicológicos Básicos IV) 

Desde pequeno, eu notei um problema pertinente em mim: falta de motivação. Eu lembro dos meus dias de escola, quando era necessário um estímulo exterior (normalmente aversivo) para me fazer estudar. Meus pais me ameaçando castigo ou oferecendo alguma coisa normalmente eram os mais eficientes. Estudar nunca foi prazeroso. Aprender era e é um prazer, mas estudar não. Sempre gostei de aprender brincando, experimentando, me machucando no parquinho do condomínio, me ralando, caindo, levando bronca. Nunca gostei de ver num livro as coisas que “precisava” aprender. Não fazia muito sentido. Esse meu problema não aparecia só com as atividades escolares, era explícito em se tratando de brincadeiras quando criança, de amigos e namoradinhas durante a adolescência e atualmente é visto perante algumas obrigações. Preciso deixar claro que isso não é uma questão de preguiça. Nunca fui preguiçoso. Sempre gostei de fazer as coisas e ver as coisas acontecerem, é um prazer enorme saber que algo foi bem sucedido por conta de um esforço meu. Isto é, as coisas que me interessavam. Essas sim eu fazia com o coração. Eram feitos interessantes e muitas vezes reconhecidos por várias pessoas. Tenho a impressão que hoje em dia o meu problema está com o “dever”. Fazer porque devo é a coisa mais desestimulante que consigo pensar atualmente.

Com isso em mente, decidi que minha reflexão giraria em torno da motivação em aprender. É de se imaginar no exato momento em que escrevo este texto, mais desmotivado eu não poderia estar. A minha situação emocional e fisiológica não tem me ajudado muito. Tenho tido problemas como insônia por algum tempo, por isso ficar acordado até tarde fazendo atividade da faculdade é algo complicado. São exatamente duas da manhã, meus olhos pesam e cerca de quatro horas atrás me envolvi numa discussão que começou com gritos e terminou em choro. Então, obviamente, minha vontade é largar isso tudo e ir dormir, ou pelo menos tentar dormir, já que sono é uma contingência que não tem presença confirmada.

Na minha opinião, o fator decisivo no aprendizado é a vontade de aprender. Falo isso por experiência própria, e é dela que pretendo falar, pois das minhas experiências pessoais, eu sei tudo.

Vou usar o exemplo da leitura de um livro. Eu gosto muito de ler, romances, filosofia, sátiras, sociologia, psicologia. Gosto muito de romances, ficções científicas para ser exato. Tenho uma grande coleção de Isaac Asimov na minha biblioteca particular. Um dia decidi que leria o clássico dele, uma série de livros chamada de A Fundação. Comecei a leitura, mas depois de meras 70 páginas, eu abandonei o livro na cabeceira. O livro é até bom, virou um clássico por algum motivo, mas não tocou algo em mim que me desse tesão pra continuar, não provocou nenhum movimento interno. Com estudos a situação é semelhante, até me aplico na leitura dos textos passados e das discussões em sala de aula, mas se não movimentar algo em mim, então não haverá nada para acomodar, pois não houve desequilíbrio. Ou então posso dizer que houve uma equilibração simples. Posso concluir que eu tenho um alto grau de tolerância aos desequilíbrios, pois são raras as equilibrações majorantes pelas quais sou atravesso.

No início do ano passado, tive a experiência mais significativa da minha vida, em termos acadêmicos: me envolvi em estágio básico que me mostrou as teorias humanistas, em foco, a Abordagem Centrada na Pessoa, descrita pelo norte americano Carl R. Rogers, nos anos 1960, que tratou bastante de aprendizado na sua obra. Não é exatamente de Rogers que pretendo falar, mas da minha experiência neste estágio. Logo no início me senti meio enfadado com o clima “alternativo” que o estágio era conduzido, estava acostumado com o padrão sala de aula, professor, quadro, piloto e slides. Aquilo, logo de cara, foi um choque, mas não foi majorante. Então começamos a estudar os escritos de Rogers. Foi aí que houve um grande choque, e todo o equilíbrio caiu por terra. Aquilo provocou um movimento em mim que me instigou a estudar mais e mais. Não foi exatamente o que estávamos estudando que me balançou dessa forma, foi a forma que aquilo foi estudado. O conteúdo era passado de forma experiencial. Os alunos eram submetidos a situações que trouxessem à tona aquilo descrito nos textos, então as palavras de Rogers eram ditas pelo facilitador com o intuito de descrever o que aconteceu. Aquilo tocava a todos nós, estávamos vendo (provavelmente pela primeira vez) como era, de verdade, o que estava em um livro acadêmico. Tínhamos liberdade para ler o que quiséssemos, para aprender o que nos agradasse, o que nos tocasse e fizesse algum significado para nós. Também soube, na prática, o que era equilibração majorante.

Isso tudo é um exemplo bem claro do que Piaget falou. Mas tem algo na teoria de Piaget que me incomoda um pouco. É uma simples questão de nomenclatura. Acho que a palavra “acomodação” deveria ser abolida. O equilíbrio é rompido, as informações são representadas para então haver acomodação. Parece-me meio monótono, quase mórbido. Algo quebra o equilíbrio de um sistema funcional depois de algum tempo esse estímulo se encontra mesclado e adestrado. Para mim a mente não é tão estagnada, e o processo de aprendizado gera movimento interno, movimento esse que não cessa, mas vai se modificando com o tempo e com o aparecimento de novas informações. Talvez seja arrogância demais propor um termo substituto, mas prefiro pensar que a própria teoria de Piaget passou por um desequilibração, após tantos anos. Algum gênio da ciência falou que chegou onde está por que se apóia nos ombros de outros homens e nos seus esforços. Pois então, que haja progresso!

Prefiro pensar nisso não como acomodação, mas como incorporação. Novas informações incorporadas ao turbilhão que é a mente humana.

Foi assim que, durante toda a minha vida, as coisas significantes foram aprendidas. Caso fossem estimulantes, caso provocassem algo em mim, eu as devorava, as digeria, ressignificava tudo que girasse em torno delas para incorpora-las ao meu arcabouço teórico e experiencial. Caso não tocassem em nada dentro de mim, eu as negligenciava. Aí reside o grande desafio da educação, na minha opinião: como fazer com que o aprendizado seja significativo e estimule o aprendiz?

Carl Rogers fala da construção de relações baseadas em afeto. De acordo com suas observações e experiências em escolas, tudo se resolve com mais facilidade, quando é estabelecida uma relação deste tipo. Porque não o ensino também? Porque não investir na relação entre o facilitador e o aprendiz? Se há afeto na relação, se a relação é horizontal e humana, se é garantido ao aprendiz a liberdade para escolher para ele o que é mais interessante, o que provoca mais movimento, desequilíbrio, então o aprendizado é significativo e bem sucedido. Esse é o modelo de educação que para mim faz mais sentido.

Sinto-me receoso em entregar esse texto. Não se entregaria se fosse outro professor, mas já que criatividade e um “texto único” eram as premissas para esse trabalho, acho que posso finaliza-lo por aqui.

São 03:41 da manhã, neste exato momento. Quase duas horas depois de ter começado a escrever este texto, eu o termino. Estava desmotivado e descrente de que conseguiria alguma coisa, e se, caso conseguisse, seria algo que prestasse. Passei por uma grande confusão interna ao redigi-lo, mas voltei ao meu equilíbrio e incorporei o que pude. Achei motivação, pois o assunto que tratei é muito significativo para mim e ainda movimenta muita coisa dentro do meu ser. O resultado do meu choque é este.

 Caio Rohr - 25/04/08

Posted by caiorohr at 09:16 PM | Add a Comment

March 24th, 2008

   Mais ou menos três anos atrás, recém chegado do intercâmbio nos EUA, eu me vi deprimido... completamente deprimido. Letárgico, desmotivado, me alimentando mal, andando por aí sem saber ao certo porque eu ia de lá pra cá e de cá pra lá... não entendia minha rotina, não compreendia minha dor... não fazia a menor idéia do que era e o que eu podia fazer a respeito disso.

   Minha mãe fez uma sugestão: terapia.

   No final das contas, só fiz uma sessão que, infelizmente, girou em torno do porque do meu sofrimento... constatamos que eu estava sofrendo porque, enquanto morava fora, eu tinha mais independência, podia regular a minha vida e não precisava prestar contas a ninguém, e que aqui eu tinha voltado ao papel de filho de família e que tinha perdido coisas que julgava essenciais na minha vida.

   Legal.

   E depois?

   Não me senti melhor e creio que não era esse o motivo pelo qual eu sofria. Até hoje não sei ao certo, mas quando me encontro em situação parecida, eu ainda me bato com perguntas "porque você tá se sentindo assim?"... como se saber o motivo fizesse alguma diferença... como se saber como funciona, saber como uma coisinha faz tamanhas mudanças na pessoa, acolhesse e confortasse.

   E não é que faz?

   Sofrer sem saber porque... é complicado. Pelo menos por esse ponto de vista, conhecer a causa do seu sofrimento te ajuda, mas isso é algo seu. Nesse caso, meu.

   Eu não aguento mais sofrer sem saber porque. A mais de quatro anos eu sofro, aparento não ter motivo, mas sofro. Já ouvi o seguinte "você não sabe ficar feliz, tem que arranjar um motivo pra estar triste"...

   Mais uma pérola da família Rohr.

Posted by caiorohr at 12:32 AM | Add a Comment
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