August 11th, 2008
Mudança de Vida - Parte I: O Viajante
Ele havia partido. Deixado tudo para trás para recomeçar. Não estava fugindo de coisa alguma, não havia se acovardado frente à sua rotina, apenas estava ávido por conta da possibilidade de se apaixonar mais uma vez. Se apaixonar pela vida, reaver algum ímpeto, conquistar algum sentimento, algo genuinamente seu. Era algo promissor. Havia se apaixonado antes, e amava a sensação. Ele havia experimentado quase tudo que a sua antiga vida poderia oferecer, por isso corria atrás do que havia de novo pelo mundo. Por isso ele largou tudo o que tinha e foi para longe.
Ao chegar aonde pretendia, tudo que havia imaginado começou a se tornar realidade. Conheceu novas pessoas, novos hábitos, novas capacidades e criou novas relações, um círculo social completamente novo, que era composto de pessoas que não faziam, de forma alguma, parte do seu passado, portanto só se relacionavam com ele por causa de algum tipo de afinidade ou afeto. Era isso que ele queria: relações que se sustentassem por um fio, um fio tênue, o fio do afeto, nada mais, pois para ele, o afeto que tínhamos para com qualquer coisa era o que havia de mais honesto e humano em cada um.
Mas havia algo de errado nele: ele estava amando. Entregando cada pedaço de si e cada ação da sua vontade a esse amor. Por conta disso ele havia partido, por isso havia deixado tudo que tinha para trás. A simples noção desse amor, o amedrontava. Ele se deleitava com a sensação e com a efetivação das suas vontades relacionadas a esse amor. Por isso tinha medo. Tinha medo de amar mais uma vez e deixar tudo para trás de novo, como havia feito. Por conta disso, ele se apresentava apenas como ‘O Viajante’, pois não queria criar intimidade, queria tudo e todos, mas queria se manter para si. Os outros que o apreciassem do jeito que ele fosse, e não através de algo que alguém tinha escolhido para representa-lo, se quisessem outra palavra para denomina-lo, que a escolhessem eles mesmos.
Então O Viajante foi vivendo sua vida. Trabalhava, estudava, saia, festejava com os colegas. Até que encontrou alguém que marcou sua vida, alguém que nem sempre o entendia, mas que sempre estava em contato com ele, com seus sentimentos e com tudo aquilo que representava O Viajante. O nome dessa pessoa era Pilar. Ela o entendia, pois era como ele: apaixonado, amante, impetuoso e instintivo. Isso o fascinava, pois sabia exatamente o que passava na mente de Pilar, sabia as suas opiniões a respeito de tudo, e previa suas reações antes mesmo de algo as aliciar, e quase nunca errava. Era quase uma cópia sua.
O tempo foi passando, a relação d’O Viajante com Pilar viveu altos e baixos. Hora se distanciavam, pois achavam que não havia nada em comum entre eles nesses momentos um fazia muita falta ao outro, mas quando se encontravam, as situações era extremamente enfadonha, chegando até ao embaraço certa vez; hora estavam juntos e não havia motivos suficientes para que eles se separassem, e era essa a impressão que todos tinham.
Lentamente Pilar foi conhecendo O Viajante, e a recíproca era verdadeira. Eles admiravam mais ainda as peculiaridades e a personalidade do outro como um tudo. Dois organismos que dependiam um do outro, mas se davam espaço suficiente para isso fosse uma opção. E assim eles coexistiam.
Um dia O Viajante se sentiu nostálgico. Sentiu falta das sensações que permeavam sua vida no passado, percebeu que estava muito distante delas por tempo e espaço e se entristesceu. Sentia saudades. Assim descobriu que havia mais um amor na sua vida, descobriu que não havia como abrir mão do seu passado. Isso o entristesceu mais ainda. No entanto ele não entendia como poderia se sentir triste se estava vivendo tudo que um dia sonhara. Estava descobrindo pessoas novas e interessantes, situações inesperadas e inesquecíveis, sentimentos indiscutivelmente estranhos para ele e inimaginavelmente satisfatórios também. Não havia razão lógica para a tristeza dele. Então ele resolveu compartilhar seus sentimentos e tudo que estava em sua mente com Pilar. Ela disse que sabia o que havia de errado com O Viajante.
E nesse dia Pilar resolveu deixar para trás o título ‘O Viajante’ e resolveu o chamar de ‘O Solitário’.